O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) declarou que está considerando fazer um pedido de asilo nos Estados Unidos para poder permanecer legalmente no país por um período superior a três meses.
Eduardo mencionou que irá protocolar, nesta terça-feira (18), um pedido de licença não remunerada que permitiria sua permanência por quatro meses. Ele expressou preocupação de que seu passaporte possa ser suspenso e que seus esforços para buscar sanções contra Alexandre de Moraes, membro do STF (Supremo Tribunal Federal), possam ser impedidos. “Criaram um monstro, e esse monstro agora não tem mais limites. Alexandre de Moraes é um monstro incontrolável”, afirmou.
De acordo com o deputado, ele possui uma reserva financeira que lhe permitirá viver nos EUA, além de contar com o auxílio de amigos. Ele acredita que sua permanência no país evidencia “o estado depreciado das instituições brasileiras” e pode contribuir para pressão por soluções internacionais.
O presidente dos EUA, Donald Trump, tem dificultado a questão do asilo para imigrantes. No entanto, Eduardo acredita que sua situação é distinta, pois ele chegou legalmente ao território americano. “Estou avaliando as opções com o advogado”, disse.
Entrevista com Eduardo Bolsonaro
PERGUNTA – O senhor chegou no final de fevereiro a sua quarta viagem aos EUA. Já considerava ficar?
EDUARDO BOLSONARO – Não. Minha intenção era passar o Carnaval nos Estados Unidos e voltar ao Brasil hoje [terça-feira]. Durante a viagem, deputados do PT apresentaram um pedido à PGR [Procuradoria-Geral da República] pedindo a revogação do meu passaporte e até a prisão preventiva de Paulo Figueiredo [influenciador de direita]. No dia seguinte, Alexandre de Moraes assumiu o caso. No início, não dei muita atenção, mas ao ver a lentidão da PGR em se manifestar, comecei a achar que isso poderia fazer parte de um plano. O PGR pode estar esperando eu voltar ao Brasil para agir e retirar meu passaporte. Gravei o vídeo ontem [segunda-feira].
P. – Esse é seu maior receio e a razão para ficar aqui?
EB – Sim, porque se eu voltasse ao Brasil, poderia acabar preso, não teria mais como enfrentar as arbitrariedades do Alexandre de Moraes.
P. – O senhor conversou com seu pai e sua família antes de tomar essa decisão?
EB – Sim, conversei com meu pai e com minha esposa Heloísa. Não posso mudar de vida sem consultar a família, temos dois filhos. Os argumentos que apresentei foram aceitos. Disse a eles que se voltasse ao Brasil e confiscassem meu passaporte, a articulação que estou realizando nos Estados Unidos ficaria comprometida, pois as reuniões aqui acontecem presencialmente. Atualmente, há uma real possibilidade de que Alexandre de Moraes enfrente sanções. Dentro do Brasil, ninguém consegue detê-lo, portanto minha decisão de permanecer fora é para priorizar meu trabalho aqui.
P. – O senhor chegou a recorrer da questão do passaporte?
EB – Eu não confio mais na justiça que é controlada pelo mesmo que pretende me prender. Além disso, corre o risco de eu ser encarcerado. Não há mais limites no que diz respeito ao Alexandre de Moraes. Ele se tornou um autêntico monstro incontrolável.
P. – O senhor está sendo criticado por deixar o mandato, sendo acusado de fugir do Brasil.
EB – Na verdade, as críticas vêm da oposição, do PT e outros, que são covardes. Estão jogando com a ajuda do juiz. E como diria Nelson Piquet: “não ligo para a opinião deles”. Estou focado nas preocupações do meu eleitorado, que entende e apoia integralmente minha decisão de ficar aqui fora.
P. – Já formalizou o pedido de licença? A ideia é ficar por tempo indeterminado?
EB – Vou apresentar hoje [terça-feira] um pedido de licença não remunerada de quatro meses, uma prática comum entre deputados que desejam se candidatar a cargos como o de prefeito. Após esse período, tomarei decisões sobre o futuro.
P. – O que seu pai disse sobre sua possível permanência?
EB – A denúncia contra ele será analisada pelo STF no dia 25. Eu compartilhei meus argumentos, e ele respeitou minha decisão. Mesmo que as chances de confiscarem meu passaporte sejam pequenas, isso anularia meu trabalho nos EUA. Se fui forçado a jogar apenas com as regras do Brasil, dentro do território de Alexandre de Moraes, estarei em uma posição precária. Eles estão agindo rapidamente para tentar condenar o Bolsonaro antes das eleições de 2026. Nossa única esperança está fora do Brasil. Não acredito mais que a justiça brasileira funcione.
P. – Qual visto permitirá que o senhor permaneça aqui por quatro meses?
EB – Estou conversando com um advogado de imigração sobre isso. Ele está me aconselhando fortemente a solicitar asilo, pois não podemos descartar a possibilidade de Moraes tentar me extraditar ou solicitar minha prisão preventiva aqui. Embora Trump esteja dificultando o pedido de asilo, entrei de forma legal e continuo discutindo com meu advogado sobre outras opções, como visto de estudo ou trabalho, dentre outras possibilidades. Existe um visto de habilidades especiais que Elon Musk apoia, mas que também é criticado por outros que defendem um controle mais rígido. Esse tipo de visto deve ser usado com seriedade, pois é destinado a pessoas perseguidas que correm risco de vida em seus países.
P. – Mesmo assim, o governo tem barrado essa possibilidade até mesmo para pessoas em situações extremas. O senhor já conversou com alguém do governo Trump? Esteve no Departamento de Estado recentemente?
EB – Não conversei com ninguém. Não fiz nenhum pedido de ajuda ou favorecimento, nem indiquei advogado. Meu advogado é brasileiro e reside nos EUA há décadas.
P. – Como o senhor pretende se sustentar durante esse período?
EB – Vou contar com a ajuda de amigos e tenho uma pequena reserva de dinheiro da minha estadia anterior. É complicado discutir isso abertamente, pois pode haver consequências. Inicialmente, pretendo me sustentar dessa forma e meu pai também se dispõe a ajudar.
P. – O senhor pretende trabalhar aqui após regularizar sua situação de visto?
EB – Todas as opções estão em aberto. Tenho um visto B1/B2 para turismo e negócios, que é válido por 90 dias, mas pretendo alterar o status.
P. – Onde o senhor se encontra atualmente?
EB – Estou no Texas. O vídeo que gravei foi feito próximo ao Museu do Holocausto em Dallas, na vizinhança onde John F. Kennedy foi assassinado, um local emblemático.
P. – Considerando sua posição de presidente da Comissão de Relações Exteriores, você acredita que é mais vantajoso estar aqui em vez de atuar como presidente da Relação de Constituições Exteriores no Brasil?
EB – Com certeza. Aqui estou livre da preocupação de perder meu passaporte.
P. – Qual será o futuro do pedido de anistia aos envolvidos nos eventos de 8 de janeiro? Esse movimento pode impactar o processo do seu pai e o seu?
EB – Acredito que sim, pois reforça a critica ao estado deteriorado das instituições brasileiras. Hoje, posso dar uma entrevista na Newsmax e também pretendo conversar com Matt Gaetz, um senador que quase se tornou o PGR aqui.
P. – O senhor dialogou com membros da Casa Branca sobre a possibilidade de sanção a Alexandre de Moraes? Há algum apoio vindo deles?
EB – É um objetivo tangível. No entanto, não tenho controle sobre a administração Trump, então não posso garantir uma data. O que posso afirmar é que estão preocupados, especialmente por causa das violações dos direitos americanos. Quando Moraes pediu a prisão de uma cidadã americana que estava tweetando dos Estados Unidos e também ao tentar censurar plataformas, isso preocupa as empresas americanas.
P. – A Câmara dos Deputados custeou suas viagens para cá?
EB – Não.
P. – E surgiram especulações de que alguma empresa estaria financiando sua estadia aqui.
EB – Não. O PL cobriu algumas despesas, possivelmente durante o CPAC (conferência conservadora que ocorreu no mês passado).
P. – E estas viagens?
EB – Essa foi uma viagem turística, uma questão de férias.
P. – E não há nenhuma empresa levando custos por aqui?
EB – Não. Mas posso antecipar que Alexandre de Moraes realmente está de olho nisso e tomará as medidas cabíveis.
RAIO-X | Eduardo Bolsonaro, 40
Eduardo é deputado federal em seu terceiro mandato, sendo o terceiro filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Formado em Direito pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), atua como escrivão na Polícia Federal. Atualmente, é membro da Comissão de Relações Exteriores e assumirá a secretaria de Relações Internacionais e Institucionais do PL na próxima semana.